Fui pegar um cineminha

Fui pegar um cineminha. Um lugar sem filas, sem aquele papo chato de meia entrada, preços altos, cheiro infernal de pipoca com manteiga. Chego no local, que acabou de abrir. O bar tem pessoas o suficiente para não atrapalhar a minha sessão e cervejas de sobra para acompanhar a película que vá vai começar. Uma cervejinha? Sim, estamos falando das baladas e bares que, além da diversão que a cervejinha proporciona para todos nós filhos de Deus ou não, também exibe filmes entre uma golada e outra.

Claro que a pedida não é para aqueles aficcionados por cinema, malucos que correm atrás das melhores salas de cinema da cidade, que freqüentam as sessões da calada da noite para pegarem salas vazias. Estamos falando dos intitulados dos apreciadores de cinema que não abrem mão de uma mesa de bar. De bobos é que não tem nada!

O Santa Augusta é uma dessas opções para se fazer um programa à meia luz. Tem filmes internacionais com legendas (que permite que você não dependa tanto do áudio para entender o que se passa), desenhos mil pelas paredes, uma música de fundo e os amigos na cadeira a frente para te ajudar a rir quando um deles, depois de umas cervejas, acende o cigarro pelo lado do filtro enquanto olha para o telão.

Para filhos hiperativos da hipercultura é um prato cheio: lê as legendas, conversa com os amigos, reconhece um amigo sentado na mesa ao lado, toma cerveja, observa o movimento na rua, pede o isqueiro emprestado, comenta os pôsters e stencils do Santa Augusta, atende o celular. Acaba o filme, pede a conta, bebe o último gole de cerveja, reclama do preço da garrafa, acende um cigarro e procura o cartão de débito. Sobe os créditos do final do filme e você sai de uma sessão de cinema meio chapado, atarantado com tanta coisa ao mesmo tempo.

Um dia sentei com um amigo para conversar e tomar uma cerveja e ele se sentiu um pouco desconfortável quando meus olhos instintivamente olhavam para a tela, que exibia Clube da Luta. Todas as telas tem esse poder, de fazer você olhar para elas. Pior que isso só em praia de nudismo. Os olhos simplesmente vão, e quando você vê já está vendo.

O bar nem bem tinha sido aberto e nós nos sentamos em uma mesinha para pedir uma Original. De fora, se você nunca entrou no Santa Augusta, não dá para adivinhar que ali tem um espacinho legal para sentar tranquilamente e curtir o clima. Despretensiosamente instalado, aquele telão deu um charme legal para o bar, e me fez ficar por lá até o filme acabar.

Na mesma região, mas com um gosto um pouco mais exótico, o Astronete também exibe filmes às quartas-feiras no CineTrash Astronete, sempre às 22h. Você não paga para entrar, assiste ao filme, e ainda pode esticar a noite na segunda parte da balada, Veneno’09. Descompromissadíssimo. Reza a lenda que o dono do Atronete, colecionador de filmes trash dos anos 60, 70 e 80, trabalhava em uma locadora de filmes quando morou com a esposa nos Estados Unidos anos atrás, e por isso tem um acervo tão completo. Mas são boatos com histórias desencontradas que justificam tantos filmes.

Filme acabado, garrafas vazias na mesa, subimos a Rua Augusta em direção à Paulista. Fiquei confusa ao ver um garotos com hematomas pela cara, descendo pelo outro lado da rua, com ar de mal encarados. Achei que tinha bebido demais e caí na gargalhada. Por isso, deixe o Google Vídeos para outro dia, o DVD do stand by e procure o cineminha mais próximo… da sua cerveja.


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