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Godard ainda é vivo

Me sinto contente em viver em uma época em que Jean-Luc Godard ainda está produtivo e lançando filmes. O que me restou? Muitos mestres, músicos, cineastas, jornalistas, artistas plásticos, filósofos e sociólogos já se foram e peguei bem pouca gente viva para sentir a mesma emoção de ver o lançamento de clássicos. Já Godard, bom ele está em plena produção de seu último filme, “Socialismo”. A estreia acredito que aconteça só no Festival de Cannes deste ano – afinal, estamos falando de um dos pais da Nouvelle Vague e não há nada mais elegante do que escolher o evento para apresentar “Socialismo” para o mundo.

Godard ainda ganha uma biografia francesa (chamada “Godard”, simples assim) nos próximos meses, a primeira da década a ser publicada em francês. Apesar de toda a sua contextualização na França, as outras duas biografias lançadas nos últimos dez anos são em inglês. Escrita por Antoine de Baecque, o livro conta com detalhes o processo de criação de todos seus filmes, além de dar detalhes do relacionamento com amigos e amores.

Filme e biografia a caminho, Godard liberou um trailer do filme Socialismo, que fala da queda de ideologias da esquerda no século 21 – tema que vai instigar muitos debates quando estrear, tenho certeza!

MOSTRA LARS VON TRIER

Nem só de vida noturna vive a nossa insandecida Rua Augusta.
Entre os dias 7 de novembro e 5 de dezembro o Espaço Unibanco de Cinema exibirá filmes do polêmico e visionário diretor dinamarquês, Lars Von Trier, à frente do longa-metragem “Anticristo”, em cartaz nos cinemas. Fantástico e imperdível, já que os ingressos custam R$5. É só se animar, levantar cedo no sabadão e estar em frente ao cinema às 12h. Rua Augusta, 1475. O primeiro a ser exibido foi “Dançando no Escuro”, aquele em que a Bjork tem a doença hereditária em que ela vai ficando cega. O filho, é claro, tem a mesma doeça. Ela segue rodopiando, voando e cantando pelo filme até o fim trágico planejado pelo diretor.

Os filmes escolhidos para as próximas semanas são:

14/11 – Os Idiotas (Dogme #2 Idioterne)

1998, Dinamarca, 117 min, 18 anos.
Direção: Lars von Trier
Elenco: Bodil Jørgesen, Jens Albinus, Louise Hassing, Troels Lyby, Nikolaj Lie Kass, Henrik Prik
Sinopse: Seguindo os preceitos do Dogma 95, é contada a história de um grupo de pessoas que fingem ter problemas mentais para conseguir regalias, se divertir e incomodar as pessoas, usando como argumento que é preciso deixar aflorar o lado idiota que existe em cada um e expor a hipocrisia burguesa. A idiotice é vista como um valor de vida que merece ser explorado em todos os seus aspectos.

21/11 – Dogville (Dogville)

2003, Dinamarca, 178 min, 18 anos.
Direção: Lars von Trier
Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan
Sinopse: Estados Unidos, durante a Grande Depressão. Grace está fugindo de um bando de gângsteres. Ela chega à isolada cidade de Dogville, onde é auxiliada por Tom, um morador, que intercede em seu favor junto à comunidade local: eles a ajudam a se esconder e, em troca, ela se compromete a prestar-lhes pequenos serviços. O problema é que os bandidos intensificam a busca, o que faz com que os habitantes da cidade passem a correr perigo também. Eles querem receber mais em troca do risco ao qual estão expostos e Grace percebe que sua tranqüilidade custa mais do que supunha.

28/11 – Manderlay (Manderlay)

2005,Dinamarca/Holanda/Inglaterra/Suécia/França/Alemanha, 139 min, 16 anos.
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Willem Dafoe, Danny Glover, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, John Hurt, Chloë Sevigny.
Sinopse: Após terem deixado a cidade de Dogville para trás, Grace e o seu pai partem em busca de um novo lugar para viver. O seu carro pára por acaso em frente ao portão de Manderlay. Após uma breve pausa para almoçarem, quando estão prestes a partir, uma jovem negra aparece e bate desesperadamente nos vidros do carro.Grace segue-a para dentro de Manderlay e encontra um grupo de pessoas a viver como se a escravatura ainda existisse.Em 2003, com Dogville,Lars von Trier surpreendeu os críticos com uma nova maneira de fazer cinema. Dois anos depois, o diretor mostra a continuação da trilogia, que tem como tema a intolerância nos EUA.

05/12 – O Grande Chefe (Direktoren for Det Hele)

2006, Dinamarca Finlândia França Alemanha Islândia Itália Noruega Suécia, 100 min, 16 anos.
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Jens Albinus , Peter Gantzler , Friörik Pór Friöriksson , Benedikt Erlingsson
Sinopse: Para evitar o ódio de seus funcionários ao tomar medidas impopulares em sua empresa de informática, o inescrupuloso Ravn inventa um superior, que lhe daria ordens por telefone, dos EUA. Porém, quando ele decide fazer um negócio com um empresário islandês, precisa de alguém que finja ser o suposto dono do local. Ravn, então, contrata o ator Kristoffer para ser “O Grande Chefe”. Sem receber maiores informações, o ator deveria apenas assinar os papéis de venda, mas nem tudo sai como o planejado.

A não-normalidade

O Dona Augusta tem colaboradores. O texto abaixo foi escrito por Daniel Cavaleiro, barbudo metido à filosofia e colega. Enjoy.

Juno: Normalidade não é com a gente!

Quando me pediram para escrever sobre algum filme que tenha me trazido coisas boas, logo pensei em títulos almodovarianos ou aqueles entrelaçados do mexicano Iñárritu. Esses caras têm o dom de me fazer querer viver a vida do meu jeito, sem seguir ditados e nem ler as recomendações na bula. Jogam a realidade na sua frente e te deixam com o coração na boca durante bons minutos. São desses poucos filmes que eu gosto. São verdadeiros testes para quem raramente se emociona.

Mas lembrei de “Juno”, aquele que a capa do DVD me lembra a Sessão da Tarde. Alguma vez você viu um filme abordar o tema “Gravidez na Adolescência” sem estardalhaços patriarcais (essa eu fui longe), de um jeito diverso, doce e com uma capa que sugere “diversão” e muita “confusão” na TV à tarde?! Não?! Juno segue a contramão do óbvio.

A história é basicamente a de uma menina de 16 anos (Juno) que acaba engravidando de seu colega nerd (Bleeker) e pretende entregar seu filho para a adoção de um casal que ela idealiza.

Essa história de barriga de aluguel já se viu de monte, mas “Juno” é o exemplo de filme que deixa de lado alguns clichês. Clichês que, na maioria das vezes, alguns querem nos empurrar goela abaixo sobre temas que são tratados com luva de pelica (oi, vó!) nessa sociedade. A direção que o filme nos leva é peculiar perto de quase tudo que a gente vê por aí. E peculiar deveria ser o que vemos aos montes no cinema e na TV.

O folkzinho toma conta de 99% das canções do filme. Não sou muito conhecedor e apreciador do estilo, mas essa seleção me pareceu muito boa. Uma das mais tranquilonas, e que me agradaram mais, foi uma da Cat Power chamada “Sea of Love”. Deu pra pensar um pouco!

É fugindo do óbvio que se dá o sucesso do filme. Ele traz de forma delicada, diferente e tranquila o que poderia ser taxado de mega problema para uma menina de 16 anos. O momento da revelação da gravidez de Juno aos seus pais chama a atenção. Quem está acostumado com grandes escarcéus de novela das oito, vai achar um absurdo a tranqüilidade da cena.

Ellen Page está sensacional no papel da protagonista, justifica com glórias o título do filme ser o nome da personagem principal. Suas frases têm sacadas geniais! Seu auge de serenidade e transgressão é dizer que “Normalidade não é com a gente”. Ainda bem, não é?!

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