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Cosmética da Pobreza

Ao meio dia me peguei lendo a Folha de S. Paulo na matéria sobre a exposição onde os donos da galeria Choque Cultural, liderada por Baixo Ribeiro, estão com a exposição “De Dentro Para Fora, de Fora Para Dentro” no MASP. Seis artistas da Choque Cultural usarão 700 litros de tinta e 600 latas de spray para cobrir as paredes do MASP: Carlos Dias, Daniel Melim, Ramom Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak e Zezão.

Enfim, enfim… os repórteres puxaram o gancho para a exposição que acontece em paralelo, “Vertigem”, d’osgemeos, na FAAP, que curiosamente foi uma exposição rejeitada pelo MASP. O segundo projeto, à lá Choque Cultural, rendeu simpatia aos coradores do museu. Páginas seguintes Fabio Cypriano fez uma crítica à dupla de cair da cadeira. Vale muito a pena ler. Não para levantar a bandeira ou para formar uma opinião, mas para usufruir do bem mais valioso, o pensar, que este texto me instigou a fazer. Segue, na íntegra:

Crítica/exposição/”Vertigem”

Dupla cria “cosmética da pobreza”
Na tentativa de levar ruas ao museu, Osgêmeos tornam a miséria um produto de consumo e caem no entretenimento

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

A transposição do grafite para galerias e museus é um debate que ocorre desde a década de 70. A mostra “Vertigem”, da dupla paulistana Osgêmeos, em cartaz na Faap até dezembro, poderia ser observada como mais um capítulo dessa história.
A dupla já incorreu na institucionalização, em São Paulo, quando, em 2006, organizou “O Peixe que Comia Estrelas Cadentes”, na Fortes Vilaça.
Daquela vez, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo transformaram seus personagens em seres tridimensionais para que o visitante fosse envolvido no universo onírico da dupla. Contudo, a “instalação”, que mais parecia a atração de um parque de diversões, situava-se no campo do entretenimento e não agregou nada ao debate de como levar um trabalho transgressor feito na rua para o cubo branco de uma galeria de arte.
Agora, os Pandolfo tentam uma nova fórmula: levar a própria rua para o museu, ou melhor, seus habitantes. Um elemento fundamental no grafite é seu diálogo com o espaço urbano, marcado pela poluição visual e sonora das cidades, transformando-o e a ele agregando, em alguns casos, carga poética, como n’Osgêmeos, ou política, como em tantos outros pixadores e grafiteiros. Era óbvio em “O Peixe que Comia Estrelas Cadentes” que o diálogo com a rua fazia falta.
Em “Vertigem”, essa deficiência buscou ser compensada por fotos e vídeos de moradores de rua em situações miseráveis, o que é, sem dúvida, uma tentativa de manter o lírico diálogo entre os grafites e o entorno.
O problema é que, enquanto na rua essa tensão é autêntica, dentro de um espaço museológico as imagens desses miseráveis são mera ilustração e, pior, apropriação rasa de um estado de indigência típico das metrópoles latino-americanas. Ivana Bentes denomina uma operação parecida no cinema nacional como “cosmética da fome”.
Pois Osgêmeos realizam com “Vertigem” uma “cosmética da pobreza”, já que tornam a miséria um produto de consumo fácil, caindo, novamente, no campo do entretenimento.
E a questão não está no uso de elementos populares. É sabido que Hélio Oiticica buscava se inspirar na favela para pensar seu trabalho, mas sua meta não era criar uma chique representação da pobreza, como se vê nas fotos em “backlight” dos Pandolfo. No debate sobre a transposição da arte de rua para o museu, “Vertigem” não tem nada a declarar.

VERTIGEM
Onde: Faap (r. Alagoas, 903, tel. 0/ xx/11/3662-7198, SP)
Quando: de ter. a sex., das 10h às 20h; sáb. e dom., das 10h às 17h; até 13/12
Quanto: entrada franca
Avaliação: ruim

Sujos de tinta na delegacia

Tudo corria bem, os caras tinham feito uma parede gigante de um funeral de pássarros quando eles receberam visitas:

e foram obrigados a ter uma conversinha com o pessoal…

Os italianos contam com mais detalhes no http://www.famefestival.it/

Lambe-lambes pela cidade

Nunca vi tanto lambe-lambe junto na minha vida. O Eric Marechal passou rápido por São Paulo, mas fez o suficiente para alterar um pouco o cenário da cidade. E teve sorte porque não parava de chover nessa cidade, só no domingo que o sol apareceu mesmo, e deu para ele fazer as colagens de lambe-lambes que trouxe de Paris. São de grafiteiros de diferentes partes do mundo, como Seul, Paris e Nova York que enviam seus lambes através do Eric diretamente para as paredes cinzas do centro de São Paulo, mais precisamente a região do baixo-baixo-baixo Augusta, Frei Caneca e Praça Roosevelt.

Claro que algumas coisas já deixaram de existir, no dia seguinte mesmo vimos que várias obras foram arrancadas. Um lambe do Speedy Graphix que ele costuma vender por 25 mil euros na Europa foi destruído em menos de 5 minutos e um grande lambe de uma negra estilo Naomi foi rasgado ao meio por alguém que nada tinha para fazer. Mas é isso aí, a arte de rua não pode perder sua efemeridade, nem sua espontaneidade, por isso está sujeita ainda a esse tipo de ação retaliativa. Nem todo mundo ainda está pronto para ela, e nem pode ser empurrada goela abaixo por ninguém.


lambe da negra, que resgaram


do speedy graphix

O rolê rendeu uma reportagem de quase página inteira no jornal O Estado de S. Paulo, por isso entre um baldinho de cola e um cliques, fiz um texto sobre essa história toda de lambe-lambe para um monte de gente entre 30 e 50 anos de classe média-alta que lê Estadão na poltrona do papai. Achei legal porque leva um tema que não faz parte do cotidiano da maioria dos leitores do jornal. Todo mundo sabe que o Estadão é apreciado por um pessoal mais velho, mais voltado aos negócios e economia exatamente por sua consistência e formatação de peso, com textos extensos, que trazem um panorama mais denso das notícias. A mim me agrada a não superficialidade da coisa. Para outros é completamente inviável a leitura de uma reportagem com mais de 4 mil caracteres.

Além da matéria, ainda de quebra pude conhecer O OZI, “das antigas”. Foram ótimos os papos. Dá uma olhada nas fotos, obrigada a todos! Maravilha! Ao Eric, ao OZI, ao sol, à galera da praça Roosevelt, ao mano que rasgou o lambe do Speedy, à senhorinha que curtiu a Marilyn que colamos em frente aos Satyros, ao Fukuda que fez as fotos para o Estadão…

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